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ANÁLISE | Por que 13 Reasons Why é uma série tão perturbadora?

À primeira vista, a pequena sinopse da Netflix e dos websites de entretenimento anunciam variações do seguinte: a jovem adolescente Hannah Baker, antes de suicidar-se, deixa treze gravações em fita cassete com os motivos pelos quais tirou a própria vida. A repercussão dessas fitas na vida de todos que impactaram Hannah em algum ponto – incluindo na de seu melhor amigo, Clay Jensen – é maior do que imaginavam.

ATUALIZAÇÃO (16/05/2018): A SEGUNDA TEMPORADA DE 13 REASONS WHY ESTREIA NA NETFLIX DIA 18 DE MAIO DE 2018! 

Mas nenhuma sinopse faria jus a 13 Reasons Why, a nova série original Netflix. Nenhum aglomerado de linhas seria capaz de desenrolar a profundidade de conflitos que são abordados. E nem mesmo de descrever o impacto de algumas cenas nos espectadores. Não há apenas alusões a estupro e suicídio, por exemplo: há cenas explícitas, impactantes, chocantes. Mas absurdamente necessárias para o que a série propõe.

A grande repercussão da série pegou de surpresa até mesmo sua produtora, Selena Gomez. Mas nós entendemos: há, na série, razões de sobra para adolescentes ao redor de todo o mundo se identificarem com a trama.

O lançamento chocou bastante gente. E com motivos. Hoje, falaremos de alguns.

AVISO: A partir desse ponto, o texto contém spoilers sobre a primeira temporada de 13 Reasons Why e descrições sobre temas que podem perturbar o leitor.

Hannah não sabe muito bem quando passou a receber o rótulo de vagabunda da escola. Talvez tenha sido quando Justin Foley, cujo beijo foi seu primeiro, tirou uma foto sob sua saia enquanto ela descia em um escorregador. Ou quando Bryce Walker espalhou a mesmíssima foto pelo colégio. Ou talvez quando Alex Standall acrescentou seu nome na lista de “melhores bundas” da escola para provocar a namorada. Ou ainda, então, quando Jessica Davis – sua amiga e, até então, namorada de Alex – estapeou-a quando pregou os olhos na lista.

Talvez tenha sido em um desses momentos. Ou em todos. Ou talvez cada um deles tenha tido um papel fundamental na costura de sua infundada reputação. Hannah não sabe bem, mas sente. Sente nos olhares das garotas no banheiro. Sente na maneira com que os garotos da escola a tratam. Sente dolorosamente o peso da exclusão, do bullying, do machismo, da rotulação.

Sabemos, quando a série se inicia, que Hannah está morta. Mas as fitas que deixa elucidam muito do que estava por trás de sua decisão. Além de Justin, Alex e Jessica, temos Tyler, o stalker; Marcus, que decide tirar proveito da fama de Hannah no dia dos Namorados; Courtney, que a expõe para esconder os próprios segredos; Zach, que não soube receber um “não” sem retaliação. Temos Sheri, que causa um acidente por não dar ouvidos a ela. Temos Mr. Porter, o orientador da escola, que duvida da palavra de Hannah quando ela, em seu momento mais desesperador, buscou ajuda.

Mas, acima de tudo, temos Bryce, mais uma e outra vez. Bryce Walker é o personagem que mais choca os espectadores. Ele não foi apenas um agressor (como se isso já não fosse suficientemente chocante): ele é um estuprador. Ao longo dos treze episódios, Bryce abusa de Jessica – bêbada e desacordada – com a condescendência de seu namorado, Justin. Bryce também abusa de Hannah, tomando a falta de um “não” como um automático “sim”.

Bryce é um reflexo de muitos adolescentes e jovens adultos do mundo atual, que ainda se desenvolvem na cultura do estupro e do “quem cala, consente”.  E Hannah, Jessica, um reflexo de muitas garotas e mulheres silenciadas ao sofrerem abuso. Ambas lidam com o trauma do estupro de uma forma diferente em muitos pontos, mas algo é nítido para quem assiste: o fardo do abuso nunca deixa as costas de nenhuma das duas. E como poderia, afinal?  

O abuso é o ápice ensurdecedor da trajetória de Hannah em sua luta contra o rótulo machista que lhe foi dado no colégio. Em suas próprias palavras, Bryce partiu sua alma. A partir daí, resta-lhe um vazio. Hannah Baker cansa de continuar em loopings pela interminável montanha-russa de agressões, estigmas e humilhações, que se tornam um mar de angústia. A decisão está tomada. As fitas estão gravadas. Ela decide deixar-se ir, em uma cena inimaginavelmente explícita e impactante, em que vemos a garota em seus momentos finais.

E, em meio a tudo isso, vemos o sofrimento de Hannah pelos olhos e ouvidos de Clay Jensen, o que torna ainda mais doloroso. Clay culpa-se pesadamente pela morte da amiga e garota que amava. E, mesmo após ouvir sua fita – na qual Hannah o absolve de qualquer culpa -, isso se intensifica. Clay é agredido fisicamente, é ameaçado: ele também é fortemente hostilizado no colégio, especialmente quando decide fazer justiça à morte da amiga.

Há, no fim das contas, um ciclo interminável de bullying. É uma reação em cadeia: o agressor também é agredido, muitas vezes, e vice-versa, especialmente no clima competitivo do sistema escolar em grande parte do mundo. Alex Standall esteve nas fitas e fez parte das angústias de Hannah, mas, ao fim da trama, reinicia o ciclo do suicídio atirando em sua própria cabeça.

Não é claro se ele de fato chega a morrer, mas algo é fato: ele, como Hannah, também escolheu tirar sua própria vida. Alex sentia culpa, mas também se sentia deslocado, perdido. E dá alguns sinais, ao longo dos episódios, de que já não se importava tanto com viver (quem não lembra da cena em que ele se joga na piscina de Bryce, fazendo menção de afundar?).

Tyler Down foi seu stalker, mas também foi o alvo de risadas pelos corredores do colégio inúmeras vezes. No último episódio, é visto guardando armas e munição em uma maleta, e pendurando fotografias de todos os envolvidos na trama. A mensagem não é clara, mas deixa a especulação de que Tyler pretendia reagir. E reagir, de certa forma, opostamente à Hannah: não tirando a própria vida, mas sim a de todos os seus agressores. Reação que, inclusive, é assustadoramente comum nos colégios americanos (é só nos lembrarmos de Columbine, por exemplo).

E onde ficamos nisso? Na cegueira, na ignorância. Imersos em Hannah, também não percebemos os sinais de Tyler e Alex. Assim como seus colegas, imersos em suas rotinas, não perceberam os sinais de Hannah – e seus respectivos papéis neles. A verdade é que todos os três apenas deixam desesperadamente claro o quanto não enxergamos o outro.

O QUE ESPERAR DA SEGUNDA TEMPORADA DE 13 REASONS WHY?

Não há como negar que a série deixa lacunas para a segunda temporada. Alguns finais são incertos: não se vê Bryce pagar pelo que fez, por exemplo – provavelmente, a maior frustração dos espectadores -, ou Jessica finalmente lidar com o abuso que sofreu. A possível morte de Alex é também deixada em aberto, assim como a reação violenta de Tyler. A história de Skye também poderia ser mais explorada. Poderia Clay conseguir evitar que a amiga, cheia de marcas nos pulsos, chegasse ao mesmo destino de Hannah? E ele mesmo – será capaz de seguir em frente? São apenas especulações: a segunda temporada estreia na Netflix dia 18 de maio de 2018. 

13 Reasons Why não tematiza apenas o suicídio. Tematiza também todos os motivos que possivelmente levariam um adolescente a isso. O bullying, a exclusão, a solidão. Especialmente, ainda, uma mulher. O sexismo, o abuso sexual. Tematiza a falta de empatia, de alteridade, de olhar para o outro. Tematiza a competitividade violenta.

E é esse caminho que esperamos mudar.

+ 13 REASONS WHY: CONHEÇA O LIVRO QUE DEU ORIGEM À SÉRIE

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