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Crônicas

O tempo certo em tempos incertos

O tempo é mesmo um senhor tão bonito. Seu rosto é enrugado, a pele escancara as marcas do desgaste e os seus lábios são finos e arranhados. A beleza do tempo, porém, não pode ser descrita pela aparência. Afinal, não existe forma unânime de enxergá-lo.

Apesar de ser o mesmo pra todos, ele se apresenta de formas diferentes. Pra compreendê-lo, é preciso reparar na expressão forte, há de se notar o olhar mais sincero de uma face.

O tempo se mostra cruel quando necessário. Ele é sádico, ri na cara dos ansiosos. Corre quando lhe pedem pausa. E se faz vagaroso quando lhe pedem pressa.

Quando preciso, o tempo pode ser amigo. Compreensivo, ele abraça quem tem saudade por saber que não pode mais voltar atrás.

Há quem veja o tempo como um remédio que cura feridas. Mas ele não pode eliminar as cicatrizes.
Há quem o enxergue como uma borracha que apaga memórias. Mas o seu presente não é capaz de esquecer o passado.
Há quem o idealize como o perfeito arquiteto do amanhã. Mas ele é fiado no hoje.

Mesmo sem dar as caras, o tempo exibe sua face no correr dos ponteiros de um relógio, no compasso de uma música, na saudade que resgata as boas lembranças, na distância do futuro projetado, na angústia do sentimento ou na alegria do momento.

Inventivo, fugaz, efêmero, vagaroso, misterioso, perfeito ou imperfeito, ele é o tempo.
Passado, presente e futuro. Em suas multifaces, é o que temos de certo em tempos incertos.

 

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